Notícias da Estrada Real Pessoal

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2 de set de 2011

Sétimo dia na Estrada Real - de Cunha a Paraty


Estrada do lado de Cunha
Marco síntese de nosso estado de espírito
Enfim havia chegado o domingo. Iríamos realizar a nossa última jornada e percorrer o caminho que, provavelmente, havia sido o início de tudo. Acredito que tudo tenha começado quando em 2005 estava em Paraty e resolvi subir a serra de Vectra mesmo tendo sido aconselhado pela polícia rodoviária a não faze-lo. Eles foram diretos e pediram que eu tivesse pena daquele carro. Mas ali foi plantada a semente da vontade que iria um dia germinar nesta viagem que estávamos prestes a terminar. Desta vez também tínhamos ouvido muitos conselhos  sobre as agruras do caminho. Realmente, as chuvas de 2009 haviam fechado aquela passagem até mesmo para motos.
Havia assistido a alguns filmes de pessoas voltando mesmo com veículos capazes de vencer qualquer tipo de obstáculo . Só que agora, apesar de mal conservada, as pontes haviam sido refeitas e nós estávamos preparados.

O início da viagem, no entanto, desmentia tudo isto. Uma estrada de asfalto muito bem conservada e com lindas paisagens, matas por todos os lados e placas indicando cachoeiras, pedras e mirantes que dava vontade de conhecer.

Em especial uma bonita cachoeira na beira da estrada com um marco da Estrada Real na frente nos obrigou a parar e apreciar aquela verdadeira síntese de nosso estado de espírito e de nossa viagem.
Porque ali estava tudo que resumia a beleza que atravessamos nesta semana: lugar tranquilo, cachoeira caindo mansamente e a natureza em torno se mostrando em todo o seu poder. A vontade era ficar ali por uma eternidade. A minha esposa estava neste momento à cata de uma planta chamada popularmente de "Marcela" de que eu ainda não havia ouvido falar antes. Na região, como num repente, passou a aparecer "Marcela" em toda parte, mato que ela é mas muito bonita mesmo assim.  Neste local, acabei fazendo o meu segundo filme da viagem que, mais uma vez, ficou parecendo que tinha sido várias vezes ensaiado e premeditado.

video

Tentamos prolongar estes momentos o máximo possível. A distância até a divisa com o estado do Rio de Janeiro é pequena, pouco mais de 20 Km. Mas devo ter gasto quase uma hora, andando devagar, parando e saboreando aqueles momentos gostosos de subida de serra...

Divisa entre o asfalto e o caminho de barro

De repente atingimos o alto da serra e tudo mudou! Chegamos na divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro e a estrada passou a ser de terra e a virar um caminho. Aí ficou evidente o quanto de política existe na decisão do que fazer nas obras públicas. Estão falando em transformar aquela maravilha em uma estrada fechada e com pedágio, uma estrada parque estão dizendo... Será que vai dar certo? As belezas vão permanecer?

Não estava no momento adequado de pensar nestas coisas porque tínhamos um lindo caminho a seguir que estava se fechando à nossa frente.

A "Marcela" e o raro encontro na Estrada Real, outro carro 
Aqui o tempo estava mais fechado e uma neblina molhada tornava a mata que avançava na estrada mais assombrada. Logo avistamos um carro que estava finalizando o seu trajeto e acabava de vir de Paraty. A nossa descida estava garantida, sem dúvidas.

A foto que tiramos deste raro exemplar encontrado durante o nosso trajeto de quase 800 km pela  Estrada Real, um outro automóvel, mostrou a tão procurada Macela em primeiro plano descansando no console de nosso Suzuki.



Nosso amigo GPS avistando longe
O nosso GPS de que tanto abusei durante os caminhos, apesar de não saber o nome de onde estávamos, estava mostrando que conhecia a região, as curvas do caminho e a distância para chegarmos a Paraty. Só se mostrava um pouco errado sobre o horário de chegada pois fazer uma média de 60Km/h nas condições desta estrada não tem carro de Rally que consiga.

Alguns buracos maiores
Os buracos da estrada começaram a ficar maiores e então tivemos de dar uma parada para esperar um pessoal de um Honda Civic que estava parado tentando estudar a forma de continuar a viagem. As duas mulheres já estavam fora do carro e uma grande cratera fazia com que um senhor, o pai, tentasse conduzir o filho motorista sem que o coitado do carro raspasse muito no chão. Mesmo não podendo escolher a melhor trilha, nos aproximamos deles e atravessamos aquele pedaço de caminho sem esforço algum, nem ao menos uma raspadinha ou dificuldade que fosse. Oferecemos então carona para as mulheres, uma delas grávida, e pudemos aliviar um pouco aquele peso e permitir que a chance deles chegarem mais rápido e a salvo ao final da trilha aumentasse.

Cratera apontada pelo marco da Estrada Real
Pudemos então ouvir a história da senhora que na verdade era uma aventureira. Há mais de 10 anos estava aposentada e haviam comprado um trailer e com ele viviam correndo não só o Brasil mas países vizinhos. Já estavam no terceiro e eles mesmos arquitetavam o trailer que passou a ser a sua casa.
Dizia que já havia passado algumas situações bem mais críticas do que aquela e que nem mesmo chegava a ser uma preocupação pois o filho possuía experiência em atravessar estradas até bem piores. Tranquilizei-me pois já começava a pensar em um lugar onde seria o nosso encontro para devolvê-las...


Pedra no meio da estrada que a havia interrompido 


Continuamos bem devagar, curtindo cada pedaço daquela trilha que estava respondendo a nossos anseios e a completar com chave de ouro o nosso passeio. Melhor ainda que o Marco da Estrada Real aparecia nos melhores momentos, nos apontando a grande cratera que havia sido aberta com as corredeiras da chuva mas se mostrando forte e fácil de ser visualizado.

Lá na frente reconheci a pedra que havia visto no YouTube e que tinha fechado a estrada em 2009. Sem dúvida deve ter sido difícil recuperar este trecho e olhando hoje nem parece que é difícil de atravessá-la.

A ponte substituída e a pedra que rolou


Mais à frente, a ponte havia sido substituída por algumas tábuas e uma grande pedra, com um pedaço avançando pela estrada, dava até a impressão de que o nosso carro era alto demais para passar por debaixo dela. Não era o caso, sem dúvida, mas duvidamos de que um ônibus caberia ali debaixo.






Vista de cima com partes da ponte velha. Dá medo!


Dei uma parada bem em cima da pinguela para olhar lá para baixo e tirar uma foto. Dava para ver ainda pedaços da ponte antiga que havia sido tragada pelas águas e se espalhavam encosta abaixo.

Diria que fiquei meio apavorado com aquela visão e com uma vontade imensa de sair logo dali de cima. Seria medo?




Depois da ponte, no entanto, a estrada foi rapidamente melhorando. Fomos parados por dois carros nos questionando sobre as suas condições lá para cima.
No primeiro deles, um Palio com um casal novinho, fui reticente dizendo que achava que eles não deveriam seguir. Sem dúvida, pela expressão nos rostos deles e pela qualidade da estrada naquele lugar, eles não acreditaram e seguiram em frente. Já com uma Fiorino, eu me mostrei mais bem preparado e falei categoricamente que eles não deveriam seguir. E eles voltaram...

Bar na beira da estrada em Paraty
Mais adiante o asfalto chegou e serpenteamos rapidamente descendo aquela serra bonita e mais movimentada anunciando que Paraty estava próxima. Paramos em um  pequeno restaurante na beira da estrada para esperar o Civic e tomar um bom café de coador. A porção de peixe na mesa ao lado cheirava bem e tinha um jeito de estar muito boa mas o desejo de comer uma Moqueca quando chegássemos à cidade foi mais forte.
Não demorou muito e eles chegaram no Civic que, liberado do excesso de peso, passou ileso pelos demais obstáculos e chegou inteiro.

Pudemos então seguir o nosso caminho por mais 5 Km somente. Aí me lembrei de que não havia pago o café e dei meia volta uma vez mais. Desta vez por uma nobre causa mesmo que de baixo valor!

Mini Estrada Real(?)



Na chegada a Paraty uma estranha curiosidade: a Mini Estrada Real... O que seria? Não havia como não pararmos para saber. Mas foi meio decepcionante pois era um museu com miniaturas dos lugares e um valor bem alto de entrada, bem maior do que os valores dos museus reais.





Para onde ir agora?



Usufruímos mais algum tempo desta chegada, atravessando alguns riachos ainda límpidos e de repente estávamos lá. As placas indicando as estradas e o Portal de Paraty nos indicaram o fim de nossa aventura.






Portal de Paraty



O que faríamos agora? Já eram quase duas da tarde. Primeiro fomos cuidar do carro, parar num posto e dar uma chuveirada nele para tirar o grosso de areia e barro que se acumulavam.

Depois fomos para a cidade à procura de um lugar gostoso para comemorar o fim de nossa jornada.
Restaurante Dona Ondina. Que moqueca! 


A cidade estava tranquila neste início de tarde de domingo de tempo nublado. No cais os marinheiros dormiam deitados na grama. Algumas grandes tendas estavam sendo armadas pois na semana seguinte iria acontecer a  FLIP - Festa Literária Internacional de Paraty, um dos grandes eventos que lá acontecem e que reúne a nata da cultura mundial em uma grande festa. Tem gente que não perde uma, chova ou faça sol!

Nos lembramos do Restaurante Dona Ondina onde já havíamos, no passado, comido uma moqueca sensacional. Ele fica na beira do rio Perequê-Açu com uma vista bonita e a moqueca do jeito que eu gosto, à capixaba, em uma bonita panela de pedra.

Prazer de olhar 


Ali sentado, saboreamos o prazer das lembranças daqueles últimos dias, todos eles muito cheio de prazeres simples e constantes, como este que estávamos ali vivenciando.

Comemos muito e, satisfeitos, agradecemos ao garçom aquela acolhida, muito especial para nós.

Na hora do pagamento, uma curiosidade: com dinheiro tinha 12% de desconto. Aí o prazer foi maior ainda!


Procurando adesivos no meio do mar de Paraty


Tínhamos de ir embora. Uma viagem de 300 Km até São Paulo nos esperava. Antes porém fomos atrás dos nossos adesivos. E, novamente, eles não foram encontrados. Afinal, estávamos no estado do Rio de Janeiro... Chegamos até a atravessar o mar já que em Paraty, com a maré alta, as águas invadem a cidade. Mesmo assim não conseguimos este presente para nosso valente Suzuki.




Volta para casa
Às cinco da tarde pegamos a estrada de volta para casa. Agora a viagem era só isto, um retorno para nossa vida real. Nenhuma surpresa estava reservada para as próximas três ou quatro horas. Somente a lembrança de que estávamos com saudades de nossos filhos que há 10 dias não víamos. E a vontade de chegar em casa e encontrar o nosso Westie Jimmy pulando em nossas pernas. E em deitar e descansar na nossa cama, em nosso travesseiro. E em começar a escrever este Blog!

A Estrada Real é mais do que um caminho, faz parte da nossa História. Termino a primeira parte do meu relato pois pretendo voltar a percorrê-la em breve. A você, que o está lendo até aqui, vá um dia visitá-la nem que seja passeando por uma pequena parte dela. Tenho certeza de que encontrará muitas surpresas boas pelo caminho.
Ajude-me também a difundir este nosso tesouro inesgotável trazendo mais pessoas para reler um pedaço de minha aventura!



21 de ago de 2011

Sexto dia na Estrada Real, de São Lourenço a Cunha

O sábado havia chegado e de São Lourenço iríamos direto a Pouso Alto. Seriam 14 Km de ER e tinha a certeza de que desta vez ia ser fácil. Mas uma coisa ficou clara para mim: - Cada um tem a SUA Estrada Real e os anjos ou demônios do caminho vão ajudar a achá-la e você não conseguirá passar nos caminhos que não estejam destinados a você naquele dia.
Acolhedora Pouso Alto
Pela planilha que estudei ficou claro que era só achar o marco próximo da Rodoviária e segui-lo. Chegar na Rodoviária foi fácil com a ajuda do GPS e de informações que ia tendo. Então por que motivo parei na rotatória e perguntei mais uma vez? O sujeito me disse que era de Pouso Alto e que ia para lá e que se eu desse uma carona me mostraria a Estrada Real. A partir deste momento eu desliguei o meu cérebro e acreditei nele. Depois de 5 Km andando no asfalto foi que parei para pensar: - Se o marco era na Rodoviária como podia ser tão longe? Ao questioná-lo ele se fez de ignorante e me mostrou uma estradinha qualquer mais na frente. Onde estava o marco? Não existia e consequentemente não entrei nela. O que fazer? Voltar ou deixá-lo em sua terra? Quem era ele e o que queria não posso afirmar. Era simples e parecia sincero mas também pode ter sido esperto e me enganado. Um demônio para me deixar consciente de que eu tinha de voltar pois não estava conseguindo alcançar todo o meu objetivo. A sorte é que chegamos rápido a Pouso Alto e ele pediu-me para deixá-lo na beira da estrada. Parei em um bar adiante e até a minha esposa, sempre tranquila, estava tensa. Não sabia bem por que?
O fato é que subi até a igreja e daí achei um marco que segui e voltei um pouco no asfalto para reconstruir um pedaço perdido da ER. Deu vontade de começar tudo de novo. Mas nosso lema era ir em frente sempre já que outras oportunidades de conhecer a nossa outra ER vão aparecer com certeza!
A cidade de Pouso Alto se mostrou acolhedora e muito bem cuidada. No bar nem o café, a única coisa que ia comprar, quiseram cobrar. Tive de comprar mais alguma coisa. Este caminho de terra desde São Lourenço ficou nas minhas pendências.

De Pouso Alto fomos para São Sebastião do Rio Verde, oficialmente a 4 Km de distância mas praticamente interligadas. O que havia acontecido era que a ponte que existe entre as cidades havia caído e só na semana anterior o Anastasia, governador de Minas, estivera lá para inaugurar a reconstrução da ponte. Deve ter sabido de minha ida e providenciou o rápido conserto, só pode ser!

Igreja de Capivari
Uma escultura da Estrada Real 
São Sebastião é somente um povoado e rapidamente já nos encontrávamos em uma estrada de terra.



Paramos para perguntar a um cavaleiro que passava como fazíamos para chegar a Capivari e ele nos mostrou a cidade lá no horizonte. Seria fácil vencer somente estes 6 km de distância. Com algumas encruzilhadas meio complicadas e que nos levava a ir com cuidado para não errar, chegamos a Capivari e paramos num café à beira da estrada com algumas esculturas de ferro e uma, principalmente, muito interessante. Era um portal de madeira com os dizeres: "Você está na Estrada Real". Era o tipo de lugar onde tínhamos de parar. Aí conhecemos o escultor que nos falou que alimentava o sonho de ter as suas esculturas espalhadas pelos locais onde os jogos da Copa do Mundo iam se realizar. Sem entender bem a relação, nos concentramos em encontrar o caminho que nos levaria a Itamonte. Ao contrário do que pensei ele não nos ajudou muito. Usei então pela primeira vez o conversor de tensão da bateria do carro para 110V que seria necessário para manter o Notebook ligado e fomos pesquisar nas planilhas que tínhamos  como chegar a Itamonte. O fato é que depois de muitas pesquisas não conseguimos chegar a conclusão nenhuma e fomos para Itamonte pelo asfalto mesmo. Esta não foi uma decisão fácil pois o meu mapa mostrava um pequeno pedaço que deveria ser de trilhas e acreditava que eu já estava preparado para este novo enfrentamento.


A serra por trás de Itamonte
Itamonte tem uma serra maravilhosa que a circunda e uma das pedras é especial pois sobressai das outras e dá o nome à cidade. Prestem bem atenção no meio do morro uma pedra diferente na foto...

Estrada bucólica para Itanhandu
Para sair para Itanhandu a 9 Km dali também não foi fácil. Inicialmente pegamos uma estrada e mesmo seguindo os marcos acabei chegando nas torres de telecomunicações da cidade. Aproveitamos uma vista bonita de lá mas alguns arranhões que o carro recebeu das árvores que invadiam a estrada acabaram não valendo tanto a pena assim.  Na descida notamos que havia uma outra estrada que estava interrompida e que havia sido este o motivo de nosso erro.


Centro de Itanhandu
Tivemos de seguir mais adiante e aí sim pegamos a estrada de terra certa e rumamos para Itanhandu. A distância era somente de 9 Km e fomos devagar numa estradinha bucólica para chegar em uma cidade mais tranquila ainda.







De Itanhandu nos dirigimos então para Passa Quatro a somente 10 Km. Atravessamos rapidamente este trecho sem problemas e em Passa Quatro o que nos chamou a  atenção foi a estação ferroviária que estava cheia de turistas. É que existe ali um passeio de trem pela serra que vai até a Vila do Embau. Estava no maior movimento e conseguimos usufruir daquela alegria e ter vontade de fazer aquele passeio também.





Estação de Passa Quatro
No embalo dos turistas provamos um queijo delicioso feito pelo próprio vendedor da estação. Disse até que tinha aparecido no Globo Rural. Acabei comprando uns queijos e também fiz aqui uma compra marcante. Numa das barracas, que vendia mosaico de vidro, havia um símbolo da Estrada Real que era o chamariz da barraca, até parecendo que não estava à venda. E era aquele que eu queria. Não foi difícil de convencê-lo a me vender e até acredito que a minha satisfação exagerada em encontrá-lo tenha até feito com que o preço se elevasse um pouco. Mas valeu a pena pois foi o melhor souvenir que encontrei da viagem!


Linda a Serra da Mantiqueira

Fizemos o possível para sair de Passa Quatro por estrada de terra mas ficou claro que alguns dos caminhos da Estrada Real seguem o que depois passaram a ser os trilhos das ferrovias. Neste caso, como ela ainda estava ativa tivemos mesmo de seguir pelo asfalto. Mas valeu a pena! As montanhas da Serra da Mantiqueira das proximidades são extremamente bonitas. Não é uma viagem mas um passeio tranquilo por paragens celestiais!

A 1,2 Km da Vila do Embau a ponte caiu
Num dos marcos dos caminhos paramos e perguntamos a uns locais que esperavam a vida passar para onde levava aquela estrada. Eles disseram que era para um sítio qualquer ali perto. Depois, pensando bem, imaginei que aquela estrada deveria levar à Garganta do Embau já que ali estava um marco da Estrada Real. Este, pelo meu mapa, deveria ser o nosso próximo destino que, por este motivo, passou a ser o segundo ponto do mapa que nós não conseguimos atingir. Descobri ai mais um local que devo perseguir para conhecer em breve. Pular cidades deixou de ser um martírio e passou a ser um desafio futuro!

Seguimos em frente na direção da Vila do Embau, já no estado de São Paulo. Estávamos indo bem, encontrando os marcos e as estradinhas de terra que levavam, um pouco mais organizadamente, aos nossos locais. Mas veio a surpresa! De repente nos deparamos com um rio, com a s margens altas e, do outro lado, uma cerca impedindo qualquer tentativa de transpô-lo. O marco da ER ali do lado indicava que a Vila do Embau estava a somente 1,2 Km de distância. A volta que tínhamos de dar para atingi-la era muito grande. Então decidimos que este seria o terceiro local a não ser visitado por nós apesar de termos estado tão perto dele.
Centro de Guaratinguetá
Seguimos então na direção de Guaratinguetá.
Aqui em São Paulo a Estrada Real não está muito bem decidida. Tem várias cidades que se candidatam como participantes mas no meu antigo mapa muito poucas delas são citadas, na verdade Guaratinguetá e Cunha. Isto torna difícil seguir o caminho, principalmente porque quase todas as estradas da região estão asfaltadas. Passei por exemplo em Canas que se apresentava como parte da Estrada Real e tinha na entrada um dos pórticos que vimos por todo o caminho. Mas preferimos tentar fazer o que o mapa nos dizia mas tenho a impressão de que não conseguimos. Chegamos a Guaratinguetá fazendo vários desvios e tentando não passar pelas cidades próximas como Cruzeiro, Lorena  e Cachoeira Paulista. Não foi fácil pois todas as estradas queriam nos levar a elas. Mas acabamos conseguindo e já era mais de quatro e meia da tarde quando finalmente chegamos a Guaratinguetá. Uma cidade bem grande mas que sábado à tarde se apresentava pacata, como toda cidade do interior. O trânsito tranquilo, imaginei, não devia ser assim durante os dias de semana. Aí, mais uma vez, o GPS ajudou bastante e pudemos dar umas boas voltas pela cidade. A igreja deslumbrante não nega a ela a razão de fazer parte da Estrada Real.

Fazenda Jararaca
Para Cunha seriam 47 Km de uma estrada que estava já toda asfaltada e que eu já conhecia. Mas o nosso mapa dizia que ela tinha grande parte de terra ainda. Será? Como num passe de mágica o nosso GPS nos apontava uma estrada que não era o asfalto. Será que pela primeira vez ele ia nos ajudar a achar uma trilha? Acreditei nele e fui seguindo por uma estrada muito bem cuidada que ia margeando um rio.... tudo para ser aquele que os antigos seguiam para levar o ouro para os portos de Paraty. Mas, de repente, a estrada acabou no portão da Fazenda Jararaca. Não teve jeito, foram 5 Km que tivemos de voltar para trás. Mas eu acredito que estávamos na estrada certa apesar de nenhum marco ter aparecido... O mais provável mesmo era que estivéssemos paralelos ao asfalto e o nosso amigo GPS não conseguiu discernir...

Igreja no centro de Cunha
O jeito foi então seguir pela estrada tradicional e, quando chegamos a Cunha, a noite já havia caído. Nós já havíamos passado rapidamente pela cidade em outros tempos mas ficamos somente pelos arredores, próximos da estrada e visitamos alguns Ateliers de cerâmica, uma grande atração na cidade. Desta vez, fomos diretos para o centro e ficamos surpresos com a beleza, tamanho e a idade da cidade. O centro era bem antigo e a cidade muito interessante. Estava acontecendo alguma festa, talvez um casamento, e a praça na frente da igreja estava cheia de gente.

Na praça da Igreja de Cunha a presença da ER
Paramos então para decidir um local para passar a noite. Foi uma decisão diferente desta vez. Ao pesquisar pelo livrinho da Credicard, que nos indicou alguns locais anteriormente, a Pousada Recanto das Girafas se apresentava como um local de luxo, caro e com algumas observações um pouco esnobes, o que não era exatamente o que estávamos procurando para passar a noite naquela viagem. Já no site Hotel In Site que utilizo frequentemente para as minhas pesquisas de locais e que acessei pelo celular,  os indicava como um bom local a preço bom. Foi a minha primeira opção e tive sorte pois havia somente um chalé por causa de desistência. Não podemos esquecer que era sábado à noite, um dia mais difícil de se achar pouso em cidades turísticas. A boa acolhida e simpatia ao telefone tornou fácil a escolha de que seria ali mesmo que ficaríamos. Colocamos o endereço no GPS que nos jogou em uma ruela que estava com um morro desbarrancando mas em 2 minutos já estávamos com o carro na entrada da Pousada. Chegamos e fomos muito bem recebidos pelo casal proprietário. Eles mandaram que deixássemos a mala no quarto e voltássemos para tomar uma cervejinha. Ali, ao lado da piscina, algumas mesas dispostas uma próxima das outras e uma grande mesa de madeira dava o tom de aconchego do local.

Pregando o adesivo de Cunha
Um bonito piano devia ser o de que falavam que era tocado pelo dono nas gostosas noites frias de Cunha. Após um bom papo preliminar e, ao saber que fazíamos a Estrada Real, ele se mostrou um grande conhecedor do assunto já que havia sido Secretário de Turismo. Contou histórias e explicou um pouco a política que envolvia a Estrada Real no Estado de São Paulo o que, de certa forma, traduziu para mim as dificuldades de encontrar o mesmo espírito que encontrei nas Minas Gerais. Insistiu no entanto que eu ia encontrar uma estrada muito ruim no dia seguinte na descida para Paraty. Fiquei tranquilo e feliz pois era isto mesmo que eu estava buscando para meu último dia de aventuras.

Para jantar eles nos indicaram ir à pé até o Baco Restaurante e Adega. Pela praticidade foi o que fizemos mas foi um achado o que encontramos. Dificilmente eu teria subido até ali sem uma boa indicação mas, além de uns risotos excelentes, o Baco possui uma adega climatizada que você visita e escolhe o seu vinho ali mesmo. Rótulos de todos os paladares e bolsos a preços honestos. Muito difícil encontrar esta paridade. Escolhi um Tempranilo espanhol que estava excelente para combinar com o meu risoto e só sinto não ter guardado o seu nome. Na saída, ainda fiz mais uma visita à Adega que, a estas alturas, já havia qualificado como o meu melhor lugar da Estrada Real, e escolhi um Malbec argentino para levar para degustar junto com meus novos amigos.
Suzuki curtindo o ambiente bucólico do Recanto das Girafas

Lá chegando mais uma surpresa agradável. Vários hóspedes haviam descido de seus quartos e estavam ali trocando idéias, já tomando os seus vinhos, numa atmosfera fraternal como já era de se esperar.  Nos reunimos a eles e sentamos em uma mesa onde estava um jornalista que tinha começado em Ribeirão Preto e que era amigo do Datena com quem já trabalhou bastante. Um grande assunto para minha esposa que é sua fã. Foi uma conversa longa e muito interessante sobre muitos assuntos e a Estrada Real sempre presente. Nesta noite, não houve piano apesar de alguns pedidos terem sido feitos em vão.

No outro dia, ao nos levantarmos para o café da manhã, a grande mesa mostrou-se presente. Era nela que o café era servido e todos nós sentávamos como se fosse uma família. As conversas e amizades nasciam naturalmente. Uma grande ideia e um excelente lugar para ir passar uns dias de confraternização com a natureza e as pessoas.
Na hora de ir embora, fomos avisados mais uma vez dos perigos da estrada que estávamos para encontrar e recebi a promessa de um caminho que vai de São Paulo a Cunha por estrada de terra que, prometo, ainda vou cobrar.
Vista de um chalé do Recanto das Girafas

Fomos fazer uma última visita ao centro para conhecê-lo durante o dia quando, de repente, vejo uma loja de adesivos. Já estava meio esquecido desta minha procura devido às dificuldades mas me lembrei que estava em São Paulo. O difícil foi encontrar o adesivo mais bonito e Cunha passou a fazer parte da traseira de meu Suzuki.
Saímos então na direção de Paraty nosso último estágio desta viagem fantástica!







14 de ago de 2011

Quinto dia na ER, de Carrancas a São Lourenço

Fazenda Traituba
Com o olho bem aberto nos preparamos para a próxima referência do mapa, a Fazenda Traituba distante 29 Km em boa estrada de terra. Tudo que sabíamos dela era bem interessante, uma fazenda construída na época do império para uma visita do Imperador D. Pedro I. Acontece que ele voltou a Portugal e a visita nunca chegou a acontecer. Mas o que foi preparado foi grandioso, uma verdadeira fazenda dos grandes senhores da época. Mais tarde, fala-se, ela foi o berço do Mangalarga... Depois tornou-se uma pousada para os viajantes da Estrada Real. Tantas estórias ficaram no passado pois quando lá chegamos ela estava fechada à visitação, informação que eu já havia lido mas que torcia para não ser verdadeira. Tentamos até visitá-la mas um garoto apareceu e nos informou que ela havia sido vendida e que o novo dono não permitia que ninguém entrasse nem para uma pequena visita. Tivemos de dar marcha a ré e só uma foto restou de lembrança daquela grande fazenda.

A próxima parada seria em Cruzília a 36 Km dali com só um pequeno pedaço de asfalto próximo da chegada.

Escola na beira da estrada parada para nos ver passar

No caminho uma situação inusitada. Ao passarmos por um vilarejo em que as crianças jogavam futebol após as aulas, já que as mochilinhas descansavam serenas nas proximidades, todas elas pararam o jogo e se viraram para nos ver passar e acenar. Talvez o único carro visto naqueles dias atravessando aqueles caminhos!

Outra grata surpresa foi encontrar um andarilho, um senhor de Floripa, que havia começado a caminhada desde Diamantina e já estava há 15 dias percorrendo os caminhos da Estrada Real. Paramos para saudá-lo e ele muito simpático explicou rapidamente que começava a jornada todos os dias por volta das 6 horas da manhã e que parava por vota das duas. Eram em torno de 8 horas de caminhada diária. Ele estava muito inteiro e senhor de si. Ante uma brincadeira de querermos dar uma carona para ele, riu e insinuou de ficar com o meu chapéu da Estrada Real de que gostou muito. Rapidamente disse que era o último deste tipo que havia encontrado. Não sabia que depois encontraria uma Loja Virtual que os vende pois talvez até tivesse dado o boné para ele. Ou não? De qualquer forma, fica aqui uma promessa, entre em contato que esta é uma dívida que faço questão de pagar em troca de saber como terminou a sua aventura.

Igreja de Cruzília
Continuamos a nossa busca de ir adiante um pouco mais rápido do que o normal. Neste dia buscava um porto seguro para descansar e garantir que os olhos realmente estivessem curados, garantindo que a nossa jornada chegaria ao término. Estávamos agora nos dirigindo a uma das encruzilhadas antigas da estrada que acabou herdando o nome, Cruzília.

Cruzília é a cidade dos queijos e logo paramos numa loja de fábrica bem na beira da estrada mas não foi fácil ser atendido pois estava lotada com os quatro seguranças de uma transportadora de valores e resolvemos ir comer o queijo no centro da cidade mesmo. Mas a loja é bem montada e com uns queijos que pareciam estar gostosos mas muito caros para serem direto da fábrica...

O centro de Cruzília, cidade pequena e muito pacata, mas bem limpa e com jeito de interior.

Igreja de Baependi
Seguimos então para Baependi uma das mais antigas cidades desta região a 15 Km. Em Baependi demos uma volta na cidade procurando a saída para Caxambu e aí fazendo questão de encontrar a estrada de terra descrita em nosso mapa. Mais uma vez não foi fácil mas conseguimos enfim achá-la com muita conversa com os moradores jovens e velhos da cidade...
De Caxambu a São Lourenço
Caxambu estava a apenas 4 Km e descemos numa bonita avenida em torno do lago e do parque da cidade. A impressão inicial de Caxambu é que está meio decadente dos tempos áureos das cidades das águas de Minas mas na verdade gostaria muito de voltar lá e conhecer os seus detalhes. Por sinal encontramos lá com o caminhão do maestro Arthur Moreira Lima que faria um show naquela noite. Estava em frente ao Palace Hotel Caxambu, uma relíquia viva daqueles tempos, parecendo um palácio sobrenatural. Almoçamos ali perto, bem em frente, no Faustino's, um restaurante que tinha como atração as trutas. Enfim ia matar a minha vontade da noite anterior! O prato estava excelente mas o melhor foi o papo que tivemos com o dono. Inicialmente, ele parecia muito tenso pois o garçom havia faltado naquele dia e ele é que tinha de atender as mesas. Como era um restaurante pequeno e, além de não estar cheio, não havia ninguém apressado, não era necessária a tensão. Mas quando todos foram embora e ele pôde ficar mais a vontade, nos ofereceu o licor de jabuticaba da casa, e então perguntamos sobre o caminho para São Lourenço. Ele pôde então mostrar o interesse e contar que tinha um Fusca velho somente para fazer e percorrer estes caminhos. Sempre era muito bom quando encontrávamos alguém que manifestava interesses como os nossos e eu podia ver naqueles olhos como nos invejavam e gostariam de estar no nosso lugar.

Estação de trem
De Caxambu a São Lourenço foram 22 Km de uma bonita estrada de terra que fizemos devagar e curtindo a paisagem. Neste trecho, enfim, encontramos alguns ciclistas percorrendo a estrada mas que pareciam locais e não de grandes distâncias pois não havia mochilas acompanhando-os.

A chegada a São Lourenço nos apresentou uma cidade que nos impressionou.

Logo na entrada a estação de trem bonita e bem cuidada. Imaginamos que deve ter bonitos passeios pois a Maria-fumaça estava lá ao lado muito bem cuidada. À frente, imensos jacarés e garrafas tamanho grande de águas minerais enfeitavam as esquinas.
Uma parada na Secretaria de Turismo foi simplesmente inócua pois ali nada havia. Mas quando nos dirigimos para o centro da cidade tudo mudou! A cidade está grande e muito bem tratada. Estava no final da tarde cheia de gente. O lago e o parque das águas muito bonito e cheio de atrações. A cidade não lembra em nada a que conheci em minha adolescência. Resolvi que ali ia ficar num hotel perto do lago e com vista. Consultando o nosso guia achamos que uma boa opção seria o Beira Parque e coloquei o GPS para ir para lá. Chegamos rápido mas lá havia um problema pois eles utilizavam a garagem de um outro hotel do grupo chamado Central Parque a uns 3 quarteirões dali.
Nesta altura do caminho, como nós íamos dormir em um hotel e deixar o nosso Suzuki em outro? Além das complicações do transporte das malas achamos que isto não ia dar certo! Tínhamos também a opção do Colonial, ali do lado e em frente ao Lago, mais barato mas parecendo bem mais antigo.

Vista noturna do lago de São Lourenço

Fomos ver como era o Central Parque e, apesar do preço maior, não tivemos dúvidas que neste dia este era o que queríamos. Um prédio moderno e com varandas viradas para o parque é o de que precisávamos para repor as energias.

Diferente dos outros dias quando chegamos ao hotel ainda não havia anoitecido. Foi bom que tive tempo neste dia de dar uma descansada antes de nos prepararmos para sair e conhecer a cidade.

Saímos à noite e descobrimos que pelo menos grande parte da vida noturna de São Lourenço era ali por perto. Andamos até uma rua fechada ao tráfego e com barzinhos ao longo dela. A cidade estava bem animada mas havia uma quantidade grande de pessoas da terceira idade e as músicas de shows que escapavam dos hotéis próximos eram dirigidas a eles. Vando e Roberto Carlos são campeões. O que me decepcionou um pouco foi o serviço dos visualmente bem montados locais espalhados próximos ao parque e da rua fechada. Um deles expunha um recado dizendo que estava à venda bem na porta... Nos apressamos a escolher outro local. Neste outro, só havia uma garrafa de cerveja escura que muito animado o dono nos afirmava que tinha procurado com afinco.
Apesar desta falta de atenção, a noite foi muito agradável e nos divertimos comentando sobre as pessoas que passavam e curtindo o friozinho que apertava.
Comemos uns tira-gostos e uma sopa e voltamos para o hotel onde pudemos aproveitar mais daquela linda vista de nossa varanda.

Fog na manhã de São Lourenço
No outro dia amanheceu com uma neblina que encobria toda a paisagem. De nossa varanda podíamos ver muito pouco da cidade e do bonito lago que estava em nossa frente. Cheguei a pensar no porque de ter uma varanda ser tão importante já que não conseguíamos ver quase nada desde que estávamos ali. Mas como se vê na foto, até o nada pode ser muito interessante quando se está nos caminhos da Estrada Real.

Tomamos um excelente café da manhã e dei uma saída para a minha constante procura de adesivos para enfeitar o nosso Suzuki. Em São Lourenço, eu tinha certeza de que ia achar. Mas que nada!

Nos apressamos então para aprontar as coisas e correr para a nossa próxima jornada. Desta vez, eu pensei, não teria dificuldades. Uma das planilhas que achei na Internet dizia que o marco da Estrada Real era do lado da Estação Rodoviária. Nada mais fácil, desta vez eu sairia desde cedo pela Estrada Real de verdade.

Com jeito de Caminho velho da Estrada Real
O nosso Suzuki estava começando a ficar barreado, notei quando estava colocando as malas nele, com jeito de carro que está andando pelos caminhos velhos.


5 de ago de 2011

Quarto dia na ER, de Prados a Carrancas

Centro de Prados
Acordamos cedo no outro dia em Prados. O dia estava lindo como desde que começamos a nossa jornada mas um friozinho ainda deixava a janela umidificada. Descemos para o café e encontramos uma mesa farta de biscoitinhos e pãezinhos feitos na região. A cada comentário de nosso amigo Renato,  o dono do Água Limpa Apart Hotel, era mais uma que tinha de experimentar e demorei bastante nelas. Um casal estava lá a trabalho, fazendo compras de artesanatos. Já sabíamos da fama mas não especificamente de Prados. Pelos comentários, encontra-se muitas coisas boas e de bom preço nos artesãos que fixaram aqui fugindo do lugar comum. Fomos informados também que Prados possui muitas fábricas de artigos de couro como casacos e sapatos.
No centro da cidade, onde também procurei a Secretaria de Turismo, minha esposa dava umas olhadas pelas lojas de couro. Mais uma vez nada sabiam especificamente sobre a Estrada Real e nem tinham informações. Não souberam me informar se eu conseguiria comprar um adesivo, fato que já estava me deixando importunado. Como é que eu não conseguia achar em nenhuma cidade de Minas, principalmente na rota da Estrada Real, um adesivo para colar em meu carro como recordação?
Mas uma placa ali mesmo, próximo de onde eu havia parado, indicava o caminho a seguir para Vitoriano Veloso e, entre parenteses, Bichinho, nome muito mais conhecido e mais interessante também.

Chegando a Bichinho
Bichinho é um povoado que vive de artesanato. Passando pela praticamente única rua, nota-se que em quase todas as casas o artesanato prevalece. E fiquei muito pouco tempo para ter a certeza mas a primeira impressão que tive foi que quase todo ele muito parecido, como se fosse uma fábrica. Lógico que deve existir muitas exceções mas esta conclusão só vou poder confirmar quando passar lá pelo menos um fim de semana. Nos locais que paramos, notei que qualquer coisa é arte e cobrada como tal, seja uma bonita pintura como um suporte para garrafas...

Fora isto, Bichinho é bem pobre como notei por sua igreja central.

Igreja de Bichinho

Foi tranquila a ida para Tiradentes em estrada calçada de pedra por 5 Km. Uma imagem muito bonita da Serra de São José ao longo de todo o trajeto e uma vontade muito grande de passar por uma trilha que, segundo me segredaram, era utilizada pelos Inconfidentes para fugir da polícia portuguesa. Pode ser um projeto interessante para o futuro próximo.
Serra de São José em Tiradentes







Quando chegamos a Tiradentes notamos que a cidade estava sendo preparada para um grande evento que logo descobrimos tratar-se de um encontro de motoqueiros que acontece todo ano nesta época.
Preparação do evento dos motoqueiros em Tiradentes

Tiradentes sempre bucólica

Vontade de ficar por aqui muito tempo
Tiradentes tem aquela cadência especial de cidade em que você chega e não quer ir embora. Tudo conspira ali para te aconchegar. Como chegamos pela parte  alta da cidade, descobrimos que Tiradentes é maior do que imaginávamos. Nunca tínhamos conhecido o seu subúrbio antes. Mas logo chegamos em seu centro histórico que apesar de continuar o mesmo e de ser um dia de semana, nos deu a idéia de que a cidade está crescendo. Não sei bem explicar o porque desta sensação numa cidade que continua do mesmo tamanho e que já visitamos no passado em épocas de festas.

Paramos para comer um lanche bem na mesinha desta foto e para verificar a chegada dos primeiros motoqueiros da festa-encontro que ia acontecer em dois dias. Daí para a frente foi frequente o encontro pelas estradas, asfaltadas por sinal, com grupos de motoqueiros com destino a Tiradentes.
Paramos o carro em uma rua qualquer já que pelo tipo de pedra que calça a cidade é muito difícil ficar andando de carro pelo centro da cidade. Revimos alguns pontos de que tínhamos boas lembranças do passado e combinei em um lugar enquanto ia buscar o carro. No caminho mais uma vez procurei pelos adesivos da cidade que, só com muito esforço, consegui achar.  Por sinal foi um bem simpleszinho, com uma bandeira do Brasil e outra de Minas, com o nome Tiradentes embaixo. O que fazer? Era o que tinha e preguei no carro o único adesivo de uma cidade mineira de toda a viagem, ante mais de 40 locais visitados... Estou providenciando um fornecedor de adesivos para estas cidades. Quem se habilitar é só me mandar uma mensagem no meu email!

Mas vejam em que verdadeira jóia estávamos, Tiradentes tem de ser visitada com calma de quem quer ficar.

Mas a nossa meta e vontade era a Estrada Real e então começávamos a pensar em Santa Cruz de Minas a 5 km dali. Mais um povoado que estava muito próximo de São João Del Rei onde chegamos na hora do almoço. A cidade cresceu muito nestes últimos anos. Sem dúvida, há uns 10 ou 15 anos atrás quando íamos para lá, a cidade era muito pacata. Ainda mantem os traços de uma cidade do interior mas sem dúvida há uma prosperidade reinante. Chegamos no centro histórico e agora, com a cabeça muito mais acostumada, notamos quanto de belo existe em suas antigas construções. É uma pequena amostra do que foi aquela região que também foi grande na época do ouro. E nos rios pelos quais passávamos ainda pudemos ver alguns mineradores colhendo as últimas migalhas de pepitas ainda existentes.

Chegada a São João Del Rei

Centro histórico

Cemitério da elite

Como antigamente em São João
Foi com pesar que partimos em direção ao nosso próximo objetivo, o Rio das Mortes. Este nome mórbido de cidade deve ser respeitado pois foi ele que fez nascer estas povoações e que trouxe muitos aventureiros atrás do seu ouro.







Andei perguntando por lá o motivo do nome e ninguém soube dizer. Na Internet tem tantas possibilidades que cheguei à conclusão de que ninguém sabe a verdade. Vai ver que em um determinado dia morreram 2 pessoas afogadas naquelas águas e ficou o nome...








O cemitério no centro histórico de São João Del Rei estava fechado e foi só porisso que não entramos. Do portão dava para ver o respeito que ali se depositava nos mortos que, eu imagino, deveriam ser os ricos da cidade. Abaixo de uma caveira amedrontadora na entrada aparecia a data de 1836, ou seja em 175 anos quantas coisas mudaram.







Percorremos rápido os 8 km até Rio das Mortes mas quando daí a pouco pegamos o caminho para a próxima cidade, São Sebastião da Vitória, começamos a sentir na pele a verdadeira ER que estava à nossa frente. O caminho foi ficando estreito e começaram a aparecer porteiras fechadas, coisa que até este momento ainda não havia acontecido.

Ponte no caminho para São Sebastião da Vitória




A partir do momento que atravessamos esta ponte sobre o Rio das Mortes, a estrada cada vez mais se transformou numa trilha, em certos lugares nem isto, somente um pasto com o caminho para o gado.

A estrada vai se estreitando










No início não nos surpreendemos pois em outros locais às vezes o caminho era pouco utilizado. Mas ali, nem o próprio pessoal da fazenda que víamos em frente deveria utilizar.

O marco não deixava dúvidas









O bom foi que, durante o tempo todo, os Marcos nos acompanhavam. Não havia dúvidas, estávamos na Estrada Real. Mas olhando bem dá para ver que aquela estrada tinha sido abandonada há alguns anos e só uma pesquisa histórica muito atenta poderia reconstruir este caminho.

Estrada abandonada

Aqui só a pé tem sido usado pois só tem uma trilha
Travessia do Rio das Mortes





O lugar tranquilo e bonito, a fazenda ao fundo, não chegava a assustar. Mas como chegar lá?

Foi então que chegamos ao Rio das Mortes. Ele apareceu logo após uma porteira daquelas bem difíceis, feita de arame farpado. Eu tinha de passar e esperar que fosse fechada, bem em cima de um grande buraco, um teste bom para nosso valente Suzuki.





Atravessar o rio foi uma brincadeira para ele mas nós nos divertimos muito mais.

Estávamos conseguindo vencer uma difícil etapa, atravessando a ER em um local que muito pouca gente deve ter passado de carro. O espírito da aventura nos fortaleceu e nos deu a certeza de que estávamos fazendo a viagem certa.
Capelinha de São Expedito







Após a travessia foi fácil chegar à fazenda e depois de passar pelo curral pegamos a estrada que eles devem usar normalmente, muito mais conservada.

Passamos então por uma capelinha do São Expedito, o santo dos desesperados. Não era o nosso caso mas achamos interessante aquela devoção no meio do caminho.







Como num milagre aquela estrada melhorou e ficou boa. Num piscar de olhos passamos por São Sebastião da Vitória e rumamos para Caquende.

Aí nos esperava uma das vistas mais bonitas de toda a viagem além de uma bela surpresa.
Vista de Capela do Saco do lado de Caquende

De repente, após uma curva, nos aparece esta grande represa que descobri ser citada em meu mapa como sendo a de Camargos. Diz lá também que eu teria de atravessá-la para chegar na Capela do Saco. Só não dizia como.


Daqui de cima víamos uma grande extensão de água a perder de vista e nenhuma ponte. Do outro lado um pequeno povoado que descobri ser a Capela do Saco. Lá na frente uma Serra majestosa se apresentava e ocupava todo o horizonte. Deu vontade de guardar aquela imagem para não perdê-la nunca mais!
Chegada de Caquende







Fomos descendo a estrada de terra que ainda continuava boa. Lá embaixo estava Caquende, um povoado muito pequeno. Como pode? Ainda não descobriram este lugar?





Neste Rio Grande não me arrisquei
Fomos seguindo adiante e aí veio a surpresa.
A estrada acabou na Represa que é formada pelo Rio Grande e como íamos fazer para continuar?


Daí a alguns minutos começamos a ouvir um barulho vindo do outro lado e uma balsa, a Carranquinha fotografada aí embaixo, começou a flutuar em nossa direção. Vinha espirrando água em todas as direções pois usa aquele sistema de rodas que saem da água.
Carranquinha 








Chegamos rapidamente à Capela do Saco e sentimos mais ainda aquela sensação de que as coisas ali ainda estão para acontecer. Em torno de uma igreja, poucos moradores e uma grande simplicidade. Dizem que o peixe que fazem no boteco que fica na chegada da balsa é muito bom mas deixamos para a próxima.






Ponto de apoio da Estrada Real


Logo acima, a Pousada  Reis que parece legal demais para o lugar, tem uma inscrição simpática se dizendo o ponto de apoio da Estrada Real. Se não fosse muito cedo eu tinha ficado lá só por conta desta chamada. Eu queria ter visto muitas destas ao longo do caminho.



Marco da Capela do Saco cheio de informações






Os marcos da Estrada Real, além de nos acompanhar por todo o caminho e de nos passar uma sensação de segurança grande, possui muitas informações úteis. Nem todos estão tão bem conservados como este mas além de sabermos que deveríamos andar quase 28 Km até Carrancas ficamos conhecendo um pouco sobre o local e a posição exata com a Longitude, Latitude e Altura, perfeito para jogar no GPS. Sempre que estávamos sem certeza do caminho e víamos um marco sentíamos uma grande  vontade de seguir em frente.



Só sobe 4x4 e Carrancas

Em direção a Carrancas fomos seguidos o tempo todo por aquela Serra escarpada e parecendo intransponível. De repente, em uma entrada de fazenda ao pé da Serra, uma placa escrita a mão atestava: -"Só sobe 4x4". Naquela hora ficamos satisfeitos de que estivéssemos bem montados e preparados para qualquer tipo de desafio. E a estrada começou a se transformar em um caminho cortado na rocha de pedra , mais parecendo um leito seco de um rio morro acima.

Estrada escavada na rocha morro acima


Não trafegávamos mais em poeira mas numa farinha branca e em rocha dura. Foram 20 ou 30 minutos somente mas a cada curva íamos nos afunilando e procurando fugir daqueles grandes buracos. A verdade é que o carro em nenhum momento reclamou. Cheguei até a mudar as marchas, experimentar opções de 4x4, mas nada parecia fazê-lo perder a consciência de que a ele somente uma função era requerida, ir em frente.

Quando enfim chegamos no topo da Serra e aquela sensação de que éramos poderosos e estávamos conseguindo cumprir uma façanha reservada a poucos, surge lá na frente  levantando muita poeira um fusquinha branco dirigido por uma senhora que passou rapidamente por nós e começou a fazer o sentido contrário. Ou seja, veio para nos mostrar que ela devia fazer aquilo todo dia e que era muito fácil para aquele carro valente. Foi bom para nos colocarmos em nosso devido lugar e voltar à Estrada Real.

Vista de Carrancas no fim da tarde
Logo em frente avistamos Carrancas junto com a tarde que vinha findando. Na descida ainda tivemos de tomar muito cuidado pois grandes crateras se abriam por falta de manutenção da estrada, provavelmente em função das chuvas de verão. Já estava escuro quando chegamos na pracinha central da matriz. Começou então a nossa procura por um bom hotel para passarmos a noite. O primeiro que avistamos foi a Pousada Roda Vida que achamos simples e um preço um pouco alto. Como falamos com a atendente não teve negociação. Saímos pela cidade e até chegamos a pegar a estrada à procura de um hotel fazenda. Como estava muito escuro e eu começando a sentir um certo desconforto no olho, optamos por voltar ao Roda Viva e desta vez, conversando com o dono, combinamos um pequeno desconto  e ficamos mesmo por lá. Acabamos ficando satisfeitos com a escolha pois os aposentos se mostraram mais acolhedores do que esperávamos. Descemos então para jantar e a minha primeira opção era comer uma truta que tinha visto em um restaurante da praça. Acabou que nos ofereceram para ver o fogão a lenha com aquela comida mineira quentinha e não resistimos. Sentamos e comemos até fartar, acompanhados por uma boa Caracu.

Aqui tenho de fazer um comentário sobre as dificuldades da jornada. Como comentei antes, cheguei com um pouco de dor em um dos olhos e quando fui procurar uma farmácia, às 7 da noite, todas já haviam fechado. Mais tarde quando fomos para o quarto e me conectei na Internet para enviar umas fotos e estudar nosso trajeto do dia seguinte, o olho estava piorando e aparentemente inflamado. Fiquei preocupado pois como ia dirigir com o olho com problemas? De madrugada ao acordar, este olho não abria e o outro começava com a mesma coisa. Como nunca havia sentido nada parecido antes, achei que poderia ser um terçol ou uma inflamação por causa da poeira. Como teríamos de pegar uns 70 Km de estrada de terra pela frente, cheguei a verificar como seria a opção por asfalto. A conclusão é que teria de voltar até Itutinga e daí até Lavras. Ou seja, na Fernão Dias a 400 Km de São Paulo. E imagina que fiasco seria!

Devagar os Adesivos vão aparecendo

Acordei no outro dia um pouco melhor depois de muitas lavagens usando o soro fisiológico que carregava. Tomamos café e a minha veterinária predileta, que viajava comigo, conseguiu comprar um colírio destes que são proibidos a venda sem receita médica e resolveu meu problema. Estava pronto para seguir em frente e o vexame da desistência foi evitado. E o Suzuki da Estrada Real também!